Se você é homem, provavelmente já ouviu: “homem não vai no médico”.
O problema é que essa ideia tem um custo alto: anos a menos de vida e anos a mais vividos com doença.
Nos últimos 10 anos tivemos avanços importantes na saúde no Brasil. Mas, quando olhamos para os dados masculinos, o alerta continua aceso. Entender o cenário é o primeiro passo para mudar.
O que os dados dos últimos 10 anos mostram
1. A gente vive mais, mas passa mais tempo doente
Segundo o IBGE, a expectativa de vida do homem subiu: era 72,2 anos em 2014 e chegou a 73,5 anos em 2023.
Só que junto com isso aumentou também o tempo que vivemos com doenças crônicas. Ou seja: estamos ganhando anos de vida, mas nem sempre são anos com saúde plena. Essa é a principal diferença para as mulheres, que vivem em média 7 anos a mais.
2. As principais causas de morte e adoecimento
1. Doenças do coração e AVC: Ainda são a principal causa de morte. Respondem por cerca de 30% dos óbitos masculinos.
2. Causas externas: Acidentes de trânsito, homicídios e suicídio. 83% das vítimas são homens.
3. Câncer: O de próstata é o mais frequente. A estimativa é de 1 a cada 8 homens. Câncer de pulmão e de intestino também estão entre os mais comuns.
4. Doenças crônicas: Os casos de diabetes e hipertensão cresceram 35% na última década. E aqui entra um ponto crítico: o diabetes é hoje a principal causa de Doença Renal Crônica no mundo. É por causa dele que a maioria das pessoas entra em tratamento de hemodiálise.
3. E a prevenção?
De acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde 2019, 42% dos homens não procuram um serviço de saúde mesmo sentindo sintomas. Apenas 22% fizeram exames preventivos no último ano.
O resultado: chegamos tarde, quando o tratamento já é mais difícil.
Por que isso acontece?
São 3 barreiras que se repetem:
1. Cultural: Cuidar da saúde ainda é associado à fraqueza.
2. Diagnóstico tardio: Doenças como câncer de próstata e problemas do coração são descobertos em fase avançada.
3. Estilo de vida: Tabagismo, consumo excessivo de álcool, má alimentação, sedentarismo e baixa adesão a tratamentos.
4 Caminhos para aumentar sobrevida e qualidade de vida
A boa notícia é que cerca de 70% das mortes de homens entre 20 e 59 anos poderiam ser evitadas. Isso passa por:
1. Prevenção Primária: Evitar que a doença apareça
• Atividade física: 150 minutos por semana reduzem em 40% o risco de infarto.
• Alimentação: Reduzir ultraprocessados, sal e açúcar. Aumentar frutas, verduras e fibras protege contra diabetes, câncer e problemas do coração.
• Parar de fumar e moderar o álcool: Parar de fumar aos 40 anos pode adicionar 9 anos à sua vida. O SUS oferece tratamento gratuito.
• Saúde mental: O suicídio é a 4ª causa de morte entre homens de 15 a 44 anos. Conversar, pedir ajuda e buscar apoio psicológico no CAPS ou pelo CVV 188 é um ato de força.
2. Prevenção Secundária: Descobrir cedo para tratar melhor
• Check-up anual a partir dos 40 anos: Acompanhar pressão, glicose, colesterol, PSA, creatinina, parcial de urina e fazer o exame de próstata. O diagnóstico precoce salva.
• Novembro Azul: A campanha aumenta em 60% a procura por urologistas, mas o cuidado precisa ser contínuo.
• Vacina HPV: Disponível no SUS para homens até 45 anos. Previne cânceres de pênis, ânus e garganta.
3. Políticas Públicas: Levar a saúde para onde o homem está
A PNAISH – Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem precisa ir além da UBS.
Estratégias que funcionam: mutirões em empresas, barbearias e eventos esportivos. É a saúde indo ao encontro do homem.
4. Qualidade de Vida: Anos a mais, com bem-estar
• Saúde sexual: Problemas como disfunção erétil têm tratamento e acompanhamento médico.
• Rede de apoio: O isolamento social dobra o risco de depressão e morte precoce.
• Equilíbrio: Conciliar trabalho, lazer e descanso é fundamental para a saúde do coração e da mente.
Conclusão: Protagonismo é autocuidado
O maior desafio da saúde do homem brasileiro hoje não é falta de recurso. É prevenção e acesso.
Ganhar mais anos de vida só faz sentido se forem anos com autonomia e qualidade. Para isso, o caminho é simples e direto: movimentar o corpo, fazer os exames de rotina e falar sobre o que sente.
Cuidar da própria saúde é cuidar de quem está ao seu redor. E isso, sim, é coisa de homem.
Dr Roberto Benvenutti.
Médico Nefrologista.
Fontes para consulta:
1. IBGE – Tábua Completa de Mortalidade e Expectativa de Vida 2014-2023. Dados sobre aumento de anos vividos com morbidade.
2. Ministério da Saúde / DATASUS – Sistema de Informações sobre Mortalidade SIM, 2014-2024
3. Pesquisa Nacional de Saúde – PNS 2019 – IBGE
4. INCA – Estimativa de Câncer no Brasil 2023-2025 e dados do Novembro Azul
5. Sociedade Brasileira de Nefrologia e OMS – Diabetes como principal causa de Doença Renal Crônica em hemodiálise no mundo
6. Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem – PNAISH – Ministério da Saúde, 2009